Culpada seria eu
se não lhe amasse ...
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Odiavam-se. Cada um sentia pelo outro uma profunda indiferença e desprezo. Desinteresse. Pouco a pouco foi se transformando em apego por completo. Doía aos dois o que estava para acontecer, dar o braço a torcer não aparentava a eles algo justo por suas personalidades. Praticaram assim mesmo, na cegueira da sensualidade um do outro.

Descobriram o que jamais pensariam descobrir. Não naquele momento. Não daquela forma. Pegaram-se. Pegaram mesmo. Com força e brutalidade, no fogo de tanta sensualidade. Pegaram-se, sem compromisso algum desde o começo, essa era a condição dos dois. Pegaram-se sem apegar, além de fisicamente.
Era um ciclo vicioso, quase que impossível de conter e se desgrudar. Era prazer sem fim, dando e recebendo em dobro. E quem é que não gostaria de fazer parte desse ciclo? (risos) Tudo o que é bom dura pouco, estava por durar demais aquela pegação toda. Mais que uma estação até. Pela certeza de ser mais que boa. 
Ex-ce-len-te eu diria!
Ele acostumado e ela incomodada. Sentia ela na obrigação de desapegar, ou pegar de vez. Ainda mais. Por completa, por inteira e sem ter dia, hora e nem lugar para acabar. Sabia ela que não daria certo, sabia desde o primeiro olhar, sorriso envergonhado e safado.
“ – No fim de contas, que diabo possuo eu?!”
Possuía apenas um rapaz bonitinho, cheio de acanhamentos quando lhe interessava. Era ela muito ligeira e viva, lisa e seca, diferente de todas. Digo e repito: Diferente de todas!
Em um ato de plena consciência, o procurou. Na mente como a última vez, no corpo como mais uma de tantas vezes. Sem pressa, sem brutalidade, apenas desejo. Desejo forte que gritava por cada parte de seu corpo. Deitaram. Fizeram ali queimar por toda pegação que já tiveram, queriam e desejariam um dia. Superaram todas as pegações que ali tiveram antes.
Cada vez mais se complicando e pegando. Grudando. Entre braços, pernas e cinturas. Dormiram. Ao acordar ela sussurrou no ouvido dele:
Peguei durante a noite toda. Desapego hoje pela manhã para não lhe pegar nunca mais! ”
Ele ainda dormindo, talvez tentando acordar para entender o que ali acabou de ser feito, sorri. Deixa á ela o sorriso mais lindo que já havia dado e ela visto. Vira-se e continua a dormir. Ela levanta da cama e se arruma, vai embora deixando um bilhete na cômoda ao lado da cama que dizia o seguinte:
“ De tanto nos pegarmos perdemos o tato…”
Escreveu, leu e sentia aquilo com uma convicção enorme. Convicção de quem tudo pode e tudo espera. E pode mesmo. Bastava esperar um pouco, talvez até menos. Atravessando a rua já embarcaria em uma história ainda melhor.

 ( inculpável )


“Éramos o típico casal, que tinha ambos sentimentos de amor e ódio. Mas o ódio dominou de uma certa forma que pensávamos que não daria mais certo. E então ao chegar em casa, ela estava à ponto de colocar um bilhete sobre a mesa. Mas desistiu. Ela recolheu o pedaço de papel e colocou-o dentro do casaco. E ela simplesmente disse que partiria. E não me importei e disse sem medir palavras: ” - Vá, estás livre.” A ponto de ouvir o que eu disse, ela pegou as malas e sequer olhou nos meus olhos. Era de se ouvir que estava se desmanchando em lágrimas. Talvez esperava um simples “fica”, o orgulho foi maior. Ela pegaria o terceiro trem do dia seguinte. Que partira tão cedo, antes mesmo do sol nascer. Assim que ela saiu, fechei a porta com uma certa angústia. Estava frio, fui ao quarto pegar um meia pra pôr nos pés. Abri a gaveta de meias e, abaixo de uma meia furada qualquer, me deparei com uma fotografia nossa. Estávamos fortemente abraçados e aparentemente sorridentes. Me veio um sorriso espontâneo e involuntário. Atrás dizia: - ” Juntos para sempre, meu amor.” Ao ler essa mensagem, me veio cenas de toda a nossa história. Era como um curta-metragem não organizado, as imagens passavam numa grande velocidade diante dos meus olhos. E sem perceber, uma lágrima escorreu por todo meu rosto, terminando no queixo. Sequei-a e pensei comigo mesmo: - ” Que burrada que eu fiz? Deixei a mulher da minha vida ir embora.” Sem medir esforços, peguei meu casaco coloquei o celular no bolso, enrolei um cachecol no pescoço, corri até a estrada e peguei o primeiro táxi a caminho do centro da cidade. Havia um trânsito tremendo, houve um acidente. Com pressa, passei ao lado daquele tumulto e sequer notei quem estava debruçado ao chão. Eu queria mesmo é chegar o quanto antes dela pegar o trem para partir. Faltando pouco tempo pra chegar ao centro, o celular toca. Era um número desconhecido. Meio receoso atendi e perguntei:
- Alô?!
- Alô! Aqui quem fala, é do pronto socorro da vossa cidade.
- Sim, o que deseja?
- Aconteceu um acidente gravíssimo, na avenida próximo ao centro. Com uma moça.
- Como assim, eu conheço a moça?
- De fato, ela mencionou um nome e um telefone. - Imediatamente liguei e o senhor atendeu.
- Não pode ser! - Estou a caminho.
Minutos depois eu cheguei ao acidente, estava lá, a tal moça debruçada de costas. O cabelo era familiar. Os médicos a viraram de frente, era ela, a mulher da minha vida. Toda ensanguentada. Não me contive e desabei em lágrimas. A situação era muito grave. Tiraram o casaco dela e o bilhete que ela haveria de deixar sobre a mesa aquela hora, caíra ao chão e o vento a meu favor traz aquele bilhete de papel até a minha mão. Segurei-o, minhas lágrimas caíram sobre bilhete e o deixou úmido. Estava sutilmente dobrado em quatro partes. Abri e nele dizia: ” O nosso amor foi o dos mais lindos, mas nos deixamos abater por meros detalhes. Peço-lhe um tempo. Estou partindo, estou indo pra minha mãe. Ligarei assim que chegar. PS: Eu te amo! O exame de maternidade, deu positivo. Estou grávida. Lembre-se da nossa promessa: Juntos para sempre, meu amor.” Ao terminar de ler, me veio um aperto no peito, a direita vinha o médico a minha direção e diz: - Sinto muito!
A partir daquele momento, meu mundo havia entrado em transe, meu coração acelerou, veio aquele sentimento de culpa, meus olhos ficaram embaçados e ficou tudo escuro. Acordei assutado no meu quarto na esperança de tudo não ter passado de um sonho. Olhei para os lados, procurando ela… Não encontrei. No bidê ao lado, estava aquela foto encontrada na gaveta de meia e um bilhete que dizia: ” Juntos para sempre.” Pulei da cama corri para a cozinha, lá estava ela, preparando meu café da manhã. Pensei: ” - Ufa, não passou de um sonho. Imediatamente corri sorrindo, abracei-a por trás e disse: - Te amo meu amor… Juntos para sempre.” Ela sorriu e disse: - Ué, aconteceu alguma coisa?
- Não, eu só não quero te perder, pra depois dar valor.
- Que lindo amor, te amo.
- Eu amo mais, pode ter certeza.”
Only a Solitary   (via b0-y)